Então é isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte...
Renan e Santa Maria: como mudar o Brasil para melhor, mantendo o que temos de pior. http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri
A eleição de Renan Calheiros para presidente do Senado causa
revolta. Não há porquê tanto choque. Não é pior que Sarney, Maluf, Collor, ou tantos
outros políticos que dão sustentação para o governo de Dilma, e deram para o de
Lula. Também não é pior que Antonio Carlos Magalhães ou outros do mesmo
quilate, que viabilizaram os mandatos de Fernando Henrique Cardoso.
Em brincadeira de gente grande não tem santo. Você vai pra
guerra com as armas e os aliados que consegue. Churchill tinha quase mais nojo
de Stálin, seu aliado, do que de Hitler, seu arqui-inimigo. Vale também para
empresas, aliás. Business is war.
Agora, quem vai negar que tivemos avanços nos últimos vinte
anos? Controlamos a inflação. A mortalidade infantil caiu. Mais gente tem
acesso a sapato, xampu, iogurte e um diploma universitário. O Brasil se tornou
um ator global. A consultoria Price Waterhouse garantiu neste começo do ano:
nosso país é o terceiro melhor do mundo para as empresas investirem, atrás só
dos Estados Unidos e China.
Deveríamos ter avançado mais neste período, claro. Mas não
tem como tapar o sol com a peneira. O Brasil melhorou muito nestas duas décadas
de políticas de alianças. Desde o final da ditadura, todos os governos juntaram
alhos com bugalhos num grande balaio, amorfo e amoral. O PSDB, partido de
oposição, fundado por políticos com histórico de resistência ao regime militar,
atravessou o rubicão quando selou a aliança com o PFL, herdeiro político da
Arena.
Essa política, que permite e recompensa os Renans, mudou o
Brasil para melhor. A questão, e é uma questão dramática e urgente, é que é
essa política não muda o principal, que é a cultura do país. Pelo contrário, é
gasolina na fogueira. Se nossos eleitos aceitam bandidos como companheiros de
cama e mesa, porque não você ou eu? Se as regras não valem pra quem tem
dinheiro e influência, a única atitude racional é fazer qualquer coisa pra
enricar.
Também é um modelo concentrador de riqueza. O Brasil tem
pobres menos pobres que há vinte anos, mas tem ricos muitíssimo mais ricos. Se
a maior fatia da riqueza está nas mãos do governo, e de empresas beneficiadas
pelo governo, a impunidade é certeza e a injustiça é cotidiana. Pode prender os
músicos e os donos da boate. Outros incêndios virão.
Aqui ou em qualquer canto do planeta, os melhores países
para viver, onde o governo funciona melhor, são os países em que as riquezas
são melhor distribuídas. Em que um número maior de empresas pequenas representa
o coração da economia, e são o motor de geração de empregos.
Em que a distância entre a base e o topo da pirâmide é uma
estilingada. No sistema dominante no planeta - vamos chamar de capitalismo? - a
única liberdade de fato vem da riqueza. Não só para o indivíduo, mas para a
comunidade, e a nação. Quanto mais pobres tem um país, menos poder e menos
poder de pressão tem seu povo, como um todo. E menor a liberdade de expressão,
porque a imprensa é sustentada por poucos. Vale para Estados e regiões. Compare
São Paulo com o Maranhão, ou o Leblon com a Favela da Maré.
Não estamos sós. Os BRICS estão cada vez mais ricos. Mas só
os ricos apitam nestes países. Está sendo criada uma nova aristocracia
empresarial-governamental, a cobra comendo o rabo. Há quem diga que a saída é a
educação. Os russos tem alto nível educacional. A Rússia está há anos nas mãos
de um brucutu da KGB e de uma elite plutocrata.
Educação não é o que você diz, é o que você faz. Só se educa
por exemplo. Não adianta um povo com mestrado, e todas as apostilas garantirem
que o crime não compensa, se os Renans continuam se dando bem.
Renan é só uma engrenagem na máquina. ACM, por exemplo, era
bem mais importante. Morre um, nasce outro. Sempre vai ter alguém lá no alto
para dizer ele é bandido, mas é o nosso bandido. E assim esses picaretas
continuam ganhando carta branca para aprontar, porque fundamentais para o projeto
de poder do momento. E é isso que o Brasil ensina para seus filhos.
Não dá pra mudar tudo do dia para noite. Mas as mudanças que
buscamos tem que ser de verdade. Há que meter a mão no vespeiro. Não basta
boquejar contra Renan. Nem brigar para tirar Renan, e pôr outro igual no lugar.
Os beneficiados por este estado das coisas vão lutar para que as coisas
permaneçam como são.
Em um País em que a presidente tem 80% de aprovação da
população, não precisava ser assim. Dilma tem cacife para liderar dando o
exemplo. Bancou Renan lá. É a política de sempre, que está mudando o país para
melhor, mantendo o que há de pior no País.
Mudar de verdade requer intransigência, radicalismo, coragem
moral. Renan só é importante de uma maneira: sua eleição é um perfeito exemplo
de tudo que há de errado no nosso país. Enquanto as regras não valerem para
todos, a compra de votos, eleições, pareceres, benesses, fortunas, monopólios e
alvarás é inevitável. Novas Santas Marias são inevitáveis.
Permitir o mal em prol de um suposto bem maior é
mais que imoral: é garantia de desgraça. Os meios modificam os fins...:(
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